Um Lugar para Ficar

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Nem todo lugar nasce para ser destino.
Alguns existem apenas para sustentar o tempo necessário.

Um Lugar para Ficar é um livro sobre chegadas sem anúncio,
permanências sem promessa
e a experiência silenciosa de habitar o intervalo
entre o partir e o permanecer.

Não se trata de escolher para sempre.
Trata-se, às vezes,
apenas de não ir embora hoje.
CAPÍTULO 1 — O DIA EM QUE FICAMOS

Chegamos em muitos.
Família numerosa.
Pequenos e grandes, carregando sacos pesados.
Panelas.
Roupas.
O que dava para trazer.

O trem ainda estava vivo na memória.
Gigante.
Escuro por dentro.
Barulhento.
Aquele bicho comprido de ferro
de onde eu vim dentro.

Eu não entendia o que era viagem.
Só sentia que algo tinha ficado para trás
enquanto outro lugar se abria sem promessa.

Depois disso,
não houve anúncio.
Ninguém disse que ficaríamos.

Chegar foi necessidade.
Ficar foi algo que aconteceu aos poucos.

Havia uma casa de madeira, simples,
no fundo do quintal de um parente.
Era o que havia.
E, curiosamente, era suficiente.

Quando se chega assim,
não se cria expectativa.
O ar é novo.
As pessoas são novas.
O tempo ainda não promete nada.

Talvez por isso o acolhimento tenha sido tão silencioso.

Ninguém nos perguntou quanto tempo ficaríamos.
Ninguém exigiu pressa para partir.

A cidade não se apresentou como destino.
Ela apenas abriu espaço.

Na infância, isso basta.

O mundo era descoberto aos poucos:
a rua,
a terra,
as brincadeiras improvisadas,
o risco que ensinava limite,
a liberdade que ensinava atenção.

Não havia comparação.
Tudo era novo demais para ser medido.

Com o tempo,
a ideia de passagem foi se dissolvendo.

Os dias começaram a se repetir.
A rotina ganhou corpo.
O improviso virou começo.

Ficar não foi uma decisão heroica.
Foi uma adaptação tranquila.

Foi nesse processo que aprendi, sem perceber,
que nem todo lugar precisa ser definitivo
para ser verdadeiro.

Alguns lugares apenas pedem presença.

Quando a vida não oferece garantias,
ela oferece algo mais simples:
a chance de permanecer.

E permanecer, naquele momento,
não significava escolher para sempre.
Significava apenas
não ir embora hoje.

Talvez esse tenha sido
o primeiro contato
com esse espaço que existe
entre o partir e o chegar.

Um lugar onde a vida
não exige resposta imediata.
Onde é possível ficar
sem saber exatamente por quê.

CAPÍTULO 2 — A CASA NO FUNDO DO QUINTAL

Antes de termos um endereço,
tivemos um canto.

Era uma casa de madeira,
nos fundos do quintal do meu tio.

Não havia separação clara
entre dentro e fora.

O assoalho rangia.
As paredes ouviam tudo.

Não era provisória no sentido comum.
Era do jeito que a vida começa:
sem data,
sem garantia,
sem nome.

Os adultos falavam baixo.
Falavam de trabalho,
de dinheiro curto,
do que ainda não estava resolvido.

As crianças aprendiam outra coisa.

Aprendíamos que espaço não é tamanho.
É permissão.

O quintal era maior que a casa.
E o mundo começava nesse espaço aberto.

A terra devolvia nos pés
a textura do dia.

A luz atravessava o quintal
e ensinava a passagem das horas
sem relógio.

Enquanto os mais velhos carregavam
o peso do começo,
a infância fazia o que sabe fazer melhor:
habitava.

Não havia pressa para entender.
Não havia ansiedade para explicar.

O lugar nos continha.

Aos poucos, aquela casa deixou de ser abrigo
e virou referência.

Não por proteção excessiva,
mas por repetição.

Era onde se dormia.
Era de onde se saía.
Era para onde se voltava.

Quando, mais tarde, tivemos outra casa,
algo daquele fundo de quintal permaneceu.

A noção de que o essencial
não depende de acabamento.

Talvez por isso eu nunca tenha associado
começo com falta.

Começo, para mim,
sempre teve cheiro de madeira,
barulho de passos no quintal
e a sensação discreta
de estar acolhido.

Foi nesse espaço pequeno
que aprendi algo que levaria
para a vida inteira:

nem todo lugar precisa impressionar.
Alguns apenas precisam sustentar.

E quando sustentam,
a gente fica.

CAPÍTULO 3 — QUANDO UMA CIDADE ACOLHE

Uma cidade acolhe
antes de se explicar.

Ela não pergunta de onde você vem.
Ela apenas permite
que você caminhe.

Aquela cidade ainda tinha
muito espaço vazio.

Mata, terra, ladeiras,
ruas que terminavam sem pressa.

Parecia maior do que precisava ser.
Talvez por isso coubesse tanta coisa.

Na rua onde fomos morar,
o dia descia em forma de ladeira
até um grande terreiro
de chão batido.

As brincadeiras se espalhavam:
bola,
bolinha de gude,
corridas sem linha de chegada.

A última casa ficava lá embaixo.
Depois dela, o mato.
E, às vezes, o inesperado.

Cobras enormes apareciam.
Alguém matava.
E eu corria para ver.

Não por coragem.
Por curiosidade.

Havia também os saguis,
saltando entre galhos,
lembrando que a cidade ainda era
meio bicho,
meio gente.

Enquanto isso,
a vida seguia
sem vigilância constante.

E nós aprendíamos, nesse intervalo,
a cuidar de nós mesmos.

A cidade não nos protegeu de tudo.
Mas nos deu espaço para crescer.

Quando não se tem muito,
o que acolhe não é o conforto.
É a possibilidade.

Possibilidade de brincar.
Errar.
Descobrir.

Não me lembro de medo nesse tempo.
Lembro de descoberta.

A cidade não se apresentou
como promessa de sucesso.

Apresentou-se como lugar de começo.

E, para quem vinha de longe,
isso era mais do que suficiente.

Foi nesse contexto que compreendi,
sem palavras,
que acolhimento não é abraço apertado.

É liberdade para existir
sem ser empurrado.

Talvez seja isso que algumas cidades
fazem melhor:

não chamar atenção para si
e, justamente por isso,
permitir que a vida aconteça.

Este lugar continua existindo porque algumas pessoas
escolhem sustentá-lo.

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