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Capa do livro O lugar que existe entre o presente e o eterno

O lugar que existe entre o presente e o eterno

Um livro sobre infância, ausência e memória.
Sobre viver antes de saber.
Sobre a presença silenciosa do que não ficou.

Disponível em formato físico e digital.

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Alguns capítulos

Capítulo 1 — O silêncio da família

A casa onde cresci respirava simplicidade. De manhã cedo, o cheiro do café passado se misturava ao arrastar das cadeiras e ao vento que entrava pelas frestas das janelas. Tudo parecia tranquilo, sólido, impregnado de rotina. Mas, por trás desses sons familiares, havia um silêncio espesso — um silêncio que não pertencia apenas à calmaria das casas do interior. Era um silêncio que pesava.

Ele não se manifestava de maneira explícita; ao contrário, escondia-se nos detalhes. Surgia no modo como conversas eram interrompidas quando eu me aproximava, no olhar rápido que meus irmãos trocavam antes de mudarem de assunto. Aparecia na forma como minha mãe, às vezes, me segurava com força demais, como se temesse que eu desaparecesse. Havia uma tensão invisível em seus gestos — um cuidado exagerado, quase desesperado.

Meu pai, por sua vez, me observava com uma atenção silenciosa. Não era vigilância rígida, mas um olhar constante, que parecia medir meus movimentos, conferir minha respiração, garantir minha presença. Eu não entendia aquele zelo. Apenas sentia que havia algo não dito, algo que todos carregavam e que, de alguma forma, também me envolvia.

O quintal amplo, com sua terra vermelha e árvores que dançavam com o vento, deveria ser um lugar de alegria. Eu corria, brincava, sujava os pés na poeira quente. Ainda assim, mesmo ali, eu sentia uma ausência que não sabia explicar. Era como se alguém faltasse para completar a paisagem. Havia sempre um eco dentro de mim — a sensação de que meu mundo tinha espaço demais para apenas uma criança.

Cresci cercado de ruídos simples e de um silêncio profundo. Um silêncio que moldou minhas percepções antes mesmo que eu tivesse consciência delas. Só anos mais tarde entendi que esse silêncio não era vazio: era memória. Era luto. Era o eco de uma história que começou comigo, mas que me foi escondida.

Capítulo 2 — As novenas e a tristeza

As mulheres da igreja chegavam sempre ao entardecer, quando o céu começava a perder cor e a casa parecia entrar em outro tipo de silêncio — um silêncio mais fundo, mais atento. Elas vinham com terços escuros pendendo das mãos e cadernos de cânticos gastos, dobrados tantas vezes que pareciam guardar segredos dentro das páginas amareladas.

Eu era pequeno demais para compreender o que aquelas visitas significavam, mas meu corpo entendia antes da minha mente. Bastava ouvir o primeiro murmúrio de vozes no terreiro para que algo dentro de mim se recolhesse. As saias longas roçavam o chão, os passos afundavam na terra úmida, e a atmosfera da casa mudava.

Quando elas começavam a rezar, o ar parecia engrossar. Os cantos subiam lentos, carregados de uma devoção profunda, e suas vozes ecoavam pelas paredes de barro como se procurassem alguém — ou algo — que eu não sabia nomear. Era no primeiro verso que acontecia: meus olhos se enchiam de lágrimas. O choro vinha como uma onda, involuntária, antiga, impossível de conter.

Eu não chorava por medo. Chorava por uma tristeza que não me pertencia inteiramente, mas que me atravessava como se reconhecesse em mim um espaço onde pudesse morar.

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